Astrofotografia parte 6
A nossa companheira dos céus nocturnos e também o objecto celeste mais próximo da Terra, é simultaneamente um dos alvos mais fáceis e mais entusiasmantes ao alcance dos nossos telescópios. A sua superfície que alterna as zonas mais brilhantes e as zonas mais escuras, as áreas mais cravejadas de crateras e as mais planas, a superfície mais antiga com a mais recente, o facto de por teimosia só conseguirmos observar uma das suas faces, nunca fazem deste alvo astrofotográfico uma rotina cansativa.
Até agora e ao longo dos 5 capítulos anteriores, pudemos aprender todas as bases da astrofotografia: o equipamento, as montagens, a sensibilidade à luz, o tratamento de imagens e a (cuidadosa!) observação do Sol. Neste capítulo 6, vamos esmiuçar, não os sufrágios mas sim a Lua.
A Lua é conhecida desde que os primeiros seres humanos habitaram o nosso mundo, ainda que muito provavelmente, não soubessem que raio de bola flutuante era aquela – o que não os terá impedido de ficarem fascinados com a beleza invulgar da mesma. Com pouco menos de 3 500 km de diâmetro e a cerca de 384 000 de distância da Terra, o nosso único satélite natural é também o único objecto celeste (excluindo a Terra) já pisado pelo ser humano, nas célebres missões Apolo da NASA.
O tempo que a Lua leva a girar em torno de si própria, é exactamente o mesmo tempo que leva a orbitar a Terra, por isso o lado oculto da Lua permaneceu um mistério até à sonda Luna 3 (Rússia) viajar até lá e tirar as primeiras fotografias, em 1959. Curiosamente, o lado oculto é bastante diferente do lado visível: a crosta é mais espessa, está muito mais cravejada de crateras e possui menos áreas escuras (os mares).
Este é o aspecto da Lua à vista desarmada. São perfeitamente visíveis os mares, podendo ser identificados com recurso a um mapa lunar. Uns binóculos, mesmo modestos, já te mostram as irregularidades da superfície com maior nitidez, e podes então ver as maiores crateras.
Um pequeno telescópio, com uma ampliação na ordem das 25 – 50X, mostra-te algo como o que está demonstrado na imagem acima – a superfície com grande nitidez, os mares perfeitamente identificados, várias crateras e o terminador irregular – a “linha” que separa a zona iluminada da zona não iluminada.
Sobre o terminador vamos abrir aqui um parêntesis: a Lua cheia, portanto o globo totalmente iluminado, é bonita a nível fotográfico, mas pouco ou nada relevante em termos astronómicos. Isto porque na fase de Lua cheia, a intensidade de luz é tanta que os pormenores da superfície são escondidos, não sobrando mais do que zonas mais claras e zonas mais escuras. Por isso, as melhores imagens do relevo da superfície, conseguem-se exactamente nas zonas mais próximas ao terminador, uma vez que as sombras intensificam as bordas. Mais à frente vamos ver exemplos disso mesmo.
O melhor método para conhecermos detalhadamente a Lua, é observar e fotografar tendo connosco um mapa lunar. Existem mapas destes em diversa literatura de astronomia e astrofotografia, bem como na Internet (vê o Moon Atlas).
Em seguida, uma sessão fotográfica da autoria de Carlos Gandra, utilizando os métodos já explicados nos capítulos 2, 3 e 4.

2 – Junto do terminador, as crateras e as montanhas ficam muito mais evidentes e fáceis de observar / fotografar.

3 – O Mare Imbrium (zona escura), delimitado pelos montes Jura, onde se consegue ver bem a cratera Sharp (40 km)

4 – A cratera Coppernicus (93 km), que ganha destaque perante quaisquer binóculos ou telescópios, por ser grande e radial. Está no Mare Insularum.

5 – Perto do topo central temos Tycho, com 85 km, que também é radial. Um pouco abaixo temos Clávio, uma enorme cratera com 225 km de diâmetro, que por sua vez tem várias outras crateras, mais pequenas, nas bordas e no interior.

6 – Descaída para a esquerda e com um “pico” central, temos a cratera Bullialdus (61 km). SItua-se no Mare Nubium.

7 – A “mancha” mais escura no topo é o Mare Crisium, e aquele ponto brilhante trata-se da cratera Proclus (28 km).

8 – Ao lado do Mare Crisium estão mais dois: o Mare Serenitatis (esquerda) e o famoso Mare Tranquillitatis (direita), onde o Homem deu o seu primeiro passeio lunar, em 1969.

9 – O Mare Imbrium, há 3,8 biliões de anos atrás, era na verdade uma cratera imensa com mais de 1000 km, que foi posteriormente inundada por lava. No topo central temos a cratera Arquimedes (83 km), e mais para a direita estão os montes Apenninus, uma cordilheira de montanhas que delimita o Mare Imbrium.

11 – Ao centro, perto do terminador, temos Gassendi (110 km), que tem outra cratera mais pequena (Gassendi A) numa das bordas.
Agora é a tua vez. Aponta o telescópio para a Lua e começa a identificar os acidentes da superfície, com a ajuda de um mapa. Está também na altura de a fotografares, todos os pormenores, em todas as fases, não é difícil e podes obter resultados surpreendentes.
No próximo capítulo, vamos abordar a astrofotografia nos planetas e luas do nosso sistema solar. Não percas!
(Nota: este capítulo foi publicado hoje e não ontem, devido às eleições legislativas)















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